Uma Estranha no Ninho

Com uma força exagerada, tiraram o saco de ráfia de minha cabeça, fazendo com que o Sol incomodasse meus olhos de forma dolorosa então involuntariamente os apertei. Estava calor. Muito calor. Eu sentia minha pele queimar por baixo das roupas rasgadas de viajante que um dia comprei com tanto ânimo por essa viagem. Meus joelhos sobre o chão doíam pelo contato com as pedras.
Fazendo uma varredura do meu corpo, percebo meus pés fortemente amarrados com uma corda grossa, rústica, enquanto os braços para trás estavam bem presos com uma corda também rústica porém um pouco mais fina. Sinto a pele rasgar a cada tentativa de me libertar, e o gosto de sangue na boca me alarmava pelo fato de não me lembrar como a machuquei.
Consegui focar e comecei a olhar para os lados, para meus raptores. 
Para minha surpresa, eu não era a única raptada. Haviam pelo menos 15 garotas de idade semelhante a minha, também de joelhos, imundas, descabeladas e vestidas de formas diferentes, como se fossemos turistas em um dia não muito auspicioso. 
Os nossos raptores eram cerca de 40 homens, armados até os dentes, queimados de sol. Vestiam preto e coturno, e para piorar, falavam uma língua que ninguém parecia entender.
Uma garota distante começou a fazer perguntas e chorar estridentemente, até que um dos caras simplesmente meteu-lhe o cabo de uma arma enorme na cabeça dela. 
"Nada bom" - pensei. "São agressivos pra caralho. Tenho que tentar sair com calma daqui. Não adianta correr."
Um carro alto chegou cantando pneu, e parecendo estar apressado pulou dele um homem armado, alto, careca e barbudo. 
Quando ele desceu do carro os homens pararam de falar. Ele em silêncio olhou cuidadosamente cada uma das garotas, sem tocar, mas chegava perto demais. Perto o suficiente para a garota que apanhou mais cedo dar-lhe uma cusparada na cara. Ele nem se mexeu. Fez um aceno mínimo com a cabeça e eles a levaram para longe, enquanto berrava e esperneava.  
Quando ele agachou para me olhar, como havia feito com as outras meninas, mal ousei respirar, mas queria ver todo o rosto dele. Queria o máximo de detalhes para levar o retrato falado para a polícia depois. Meu coração fazia meus ouvidos pularem. 
Seus olhos eram da cor mais escura que eu poderia ter visto em algum momento. Olhei o formato oval de sua cabeça calva, sua barba negra espessa e bem cuidada, suas sardas de sol, os pés de galinha ao redor dos olhos, sua boca cheia e uma cicatriz que quase - QUASE - não dava para perceber. Ao me ver fixar naquele ponto de seu rosto ele se afastou, me olhando nos olhos, e demorou-se um tempo ali. O que provavelmente já era sinal o suficiente para me levarem também. 
Fiz um pequeno esforço para não me segurarem, mas não o suficiente para acharem que eu era um problema. 
"Ele é o chefe aqui. Ótimo. Já sei quem eu devo fazer confiar em mim para me tirar daqui."
Dentro do carro eu assisti a 2 meninas entrarem também. Cada um com 2 caras de guarda costas, assim como eu. As outras foram levadas por outros veículos. Eles estavam nos separando. 
Ficamos posicionadas no carro de forma que não conseguíamos nos ver, nem conseguiríamos conversar porque não falávamos a mesma língua. Era cada um por si naquele momento. 

Era um deserto. Claro. Mas eu havia viajado para o Cairo, e ali não era o Cairo, estou certa disso. No caminho eu tentava me lembra como cheguei ali. 
Lembro me de caminhar com um mapa pelas ruas do Cairo e parei em um café para pegar uma água. Depois de beber a água.... não me lembro de mais nada. Por Deus, será que o café era um lugar de seleção para trafico humano? Era só o que me faltava...

Chegamos em um lugar movimentado. Muitas pessoas passando pela rua apertada, muitas crianças correndo e muita poeira. Uma senhora abriu um portão estreito e começamos a travessia. Uma das garotas perguntou para mulher em inglês se ela poderia ajudar, que estávamos sendo sequestradas, e a senhora sorriu e agradeceu. Eu não vi a reação de minha colega sequestrada, mas pelo silêncio ela deveria ter ficado no mínimo assustada. Eu sei que eu fiquei.  
Depois do portão passamos por um corredor bem arejado, cheio de plantas, e vasos coloridos, até chegar em uma pequena vila. Parecia um cortiço bem arrumado. 
Atravessamos a vila e chegamos ao fim do complexo, onde havia uma casa marrom com adornos dourados. Não se via a porta, pois havia um biombo antes dela, Então passamos pelo biombo para entrar. 
Era uma casa dos prazeres. "Puta merda, é trafico de humanos MESMO"
A garota que havia falado em inglês mais cedo surtou. Se jogou no chão e começou a gritar quando um grupo de mulheres muito bonitas e seminuas apareceu e com um pano doparam a garota para um silêncio mais duradouro. Os guarda costas dela a levaram para dentro de uma "sala". Esse mesmo grupo de mulheres se aproximou de mim e de minha outra colega. Sorrindo, a mulher a minha frente se apresentou.
- Meu nome é Samira. Vou cuidar de você. Mas prometa seguir minhas instruções. Não responda. Só acene com a cabeça se você entendeu.
Para minha surpresa, ela falava português. Um alivio. Mas eu precisava me manter calma. Acenei positivamente. E ela sorriu outra vez. 
A outra colega seguiu outra mulher, e os homens que estavam conosco voltaram para fora. 
- Vou tirar suas cordas. Por favor não tente fugir. As armas são usadas com frequência por aqui e imagino que você ainda queira ir embora inteira.
Só consegui sorrir de nervoso. 
Ela puxou um canivete e cortou as cordas dos meus braços e pernas. 
- Agora venha comigo. Ele quer treiná-las pessoalmente. 
Enquanto passávamos pela casa, o local parecia estar sendo limpo e arrumado, não havia atividade imprópria para crianças até então.
-Durante o dia limpamos o chão, trocamos os lençóis e batemos os tapetes nas varandas. Comemos, conversamos e nos banhamos. Tudo o que fazemos durante a noite não tem a ver conosco e sim com o que "ELES" querem. Seguindo essas regras tudo vai ficar em paz.
Não consegui conter um silvo de desdém. Ela parou e me olhou com seriedade.
- Não estamos brincando aqui, garota. Ou faz isso ou morre. Você que decide. Mas não coloque nenhuma de nós em suas ideias. Já tentaram antes. Te digo que todas as tentativas são únicas. Eles não dão segundas chances.
Eu abri a boca para achar minha voz, mas aí ele apareceu. Meu coração apertou. Era o careca barbudo.
Ele disse algo a Samira e ela assentiu. 
- Vamos. - Ela me puxou pelo braço e me levou pelo corredor. 
Entramos em um quarto grande. Havia uma cama com dossel. Não parecia de bordel. 
- É o quarto dele. Você vai ser a primeira. Faça o que você sabe. 
"Bacana" pensei. "Vou dar cambalhotas e esperar que seja suficiente"
- Eu sou virgem. - Cochichei.
- O que?
- Eu sou virgem! - falei olhando assustada enquanto seu rosto mudava de cor para um pálido amarelo. 
- Puta merda. 
Ela correu para a porta. 
- Fique aqui!
Eu fiquei. Ela saiu em disparada e eu aproveitei para procurar algo cortante. Eu queria matar ele e sair de fininho. Sei lá. Só queria me proteger. 
Quando ela voltou, ele estava com ela. Me olhou de cima a baixo. Eles conversavam em uma língua estranha e ele parecia indignado enquanto ela tentava da melhor forma explicar qualquer coisa.

Comecei então meu treinamento como criada do General. Nunca dormi com ninguém nesse bordel. Ele me protege o tempo todo. E sou "intocável". Não sei porque, mas ele pegou uma certa afeição por minha pessoa, o que me deixou de certa forma mal vista pelas outras meninas. A única pessoa que conversava comigo era Samira.

Certo dia estávamos limpando o quarto do general, quando ouvimos um som ensurdecedor que tremeu e derrubou óleos e travessas por toda a casa. As meninas ficaram apavoradas quando os tiros começaram a atravessar as paredes. Me abaixei com as mãos nos ouvidos. Samira também estava abaixada, puxou meu braço. 
-Vem comigo! Rápido!
Então corremos por uma porta atrás da parede do banheiro. Juro que não sabia que ela existia, e fomos parar do lado de fora, na parte externa da vila que estava sob ataque. A poeira estava alta, eu mal conseguia ver. Só ouvia e seguia os comandos de Samira enquanto ganhávamos as ruas estreitas para sair dali.     
Acontece que Samira era uma rebelde e queria ter saído há muito tempo, mas decidiu ficar e colher informações para poder ter como encontrar os responsáveis por tantos sequestros e carnificina. Ela me contou enquanto estávamos escondidas em um beco, atrás de uma pilha enorme de lixo, entulho e poeira.
Ouvimos a voz do general e resolvemos espiar por entre os entulhos. Ele estava coberto de poeira, atirando. E dava comandos para o outros soldados. Ele olhava para os lados e percebi que chorava. Colocou as mãos na cabeça e correu para fora do campo de visão. 
- O que ele tanto procura? - Perguntei a Samira. 
Quando a olhei ela estava de olhos arregalados olhando para mim com certa surpresa:
- Ele procura por você.
 

Comentários

  1. Este foi um sonho muito louco, mas emocionante. Confesso que fiquei de certa forma aliviada em como tudo acabou.

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